Em 2010, os tuiteiros adventistas conseguiram tornar algumas hastags religiosas as mais comentadas do microblog. Saiba como a ideia nasceu
Ele tem nome de cantor adventista, mas a praia dele é a área de novas tecnologias. Robson Fonseca (@robsonfonck), 21 anos, é aluno de Jornalismo do Unasp. Nascido em lar adventista, Robson coordena a equipe de produção do blog A+ (www.unasp-ec.edu.br/amais) e das redes sociais do Unasp (@unaspec). Porém, nunca tinha usado a internet para falar sobre sua fé, até pensar em divulgar a hastag #setimodia, fazendo alusão a crença da guarda do sábado. Depois dessa mobilização, pelo menos mais três tuitaços com temas doutrinários aconteceram em 2010: volta de Jesus, mortalidade da alma e a esperança da ressurreição (Dia de Finados), e a existência de Deus. Que venham os tuitaços de 2011!
Conexão JA: Como e quando surgiu a ideia do tuitaço?
Robson: A ideia surgiu há algum tempo, mas sem muita pretensão. É comum, durante os sábados, os adventistas usuários do Twitter escreverem mensagens com a hastag #SetimoDia. Então, num fim de semana antes do tuitaço, propus aos seguidores do perfil @UNASPec fazer uma mobilização para colocar a hastag #SetimoDia entre os assuntos mais comentados. Como muitas pessoas aderiram à ideia, marcamos o tuitaço para a semana seguinte, dias 6 (sexta) e 7 de agosto (sábado). Assim, durante uma semana, divulgamos no Twitter a ação e muitos se empolgaram bastante com a ideia.
Conexão JA: Qual foi o resultado?
Robson: Pelo que sei, aquela foi a primeira vez que jovens adventistas se mobilizaram para fazer uma ação de evangelismo em massa pela internet. E deu super certo. Só naquele tuitaço, conseguimos a participação de mais de 1.200 usuários que enviaram mais de 24 mil mensagens. Esses jovens se sentiram motivados a falar sobre o que acreditam e mais ainda, sentiram orgulhoso de ser adventista do sétimo dia.
Conexão JA: Que possibilidades evangelísticas você enxerga na internet, especialmente no Twitter?
Robson: A internet possui uma grande vantagem que é a de atingir milhares de pessoas sem que elas saiam de suas casas. Ela vai a lugares onde nem podemos imaginar. Ou seja, é uma ferramenta que temos nas mãos para fazer uso como quisermos, basta querer. Ainda mais o Twitter, que é a rede social do momento, em que temos acesso fácil a muitas pessoas. Por exemplo, durante o tuitaço, muitos enviaram mensagens sobre o sábado para pessoas famosas, algo que seria impossível de se ser fazer pessoalmente. Além disso, o Twitter tem o poder de espalhar conteúdo de uma forma muito fácil e rápida. Se uma pessoa escreve uma mensagem para ser lida pelos seus meros 100 seguidores, essa pode ser retransmitida (RT) por um deles para os seus respectivos seguidores, e assim vai. Dessa forma, se cria um efeito em cadeia, atingindo um número incalculável de pessoas.
Conexão JA: Que dicas você daria para o bom uso dessa ferramenta?
Robson: O Twitter é uma rede de conteúdo. Sendo assim, as pessoas se conectam pelo conteúdo que as outras podem lhe oferecer. E é isso que faz com que os usuários sigam uns aos outros. Logo, quem te segue, já está interessado no que você tem a dizer. Por isso, essa é uma grande oportunidade de falar sobre as coisas que você acredita. Enquanto milhares de pessoas estão comentando sobre artistas, programas de televisão, políticos e outras coisas, os jovens adventistas podem fazer a diferença e escrever mensagens de esperança.
Conexão JA: Que tipo de feedback vocês do Unasp receberam do tuitaço?
Robson: Quem participou se sentiu muito realizado em fazer parte de uma ação inovadora como essa. Algumas instituições da igreja apoiaram o projeto e também nos parabenizaram pela ideia. Durante o tuitaço, diversas pessoas manifestaram dúvidas sobre o sábado e se mostraram interessadas sobre o assunto. Pude responder algumas questões para os usuários. Além disso, vários usuários acessaram o site http://www.sabado.org/ e leram materiais sobre o tema. O real resultado da campanha talvez nunca saberemos agora, apenas na eternidade. E isso só nos motiva a procurar sempre fazer coisas novas e buscar formas diferentes de falar sobre o amor de Deus.
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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Daniel, Babilônia e a arqueologia
As relações obscuras entre os cativos judeus na corte babilônica nem sempre são compreendidas. Diante disso, alguns mitos se formaram em torno da vida do profeta bíblico Daniel e seus companheiros. Sob o ponto de vista da arqueologia, o doutor Rodrigo Silva, professor do Unasp e pesquisador, analisa as entrelinhas desse período de transição na história de Judá, em entrevista concedida ao jornalista e professor Ruben Holdorf.Conexão JA: Apenas Daniel, Hananias, Misael e Azarias chegaram à condição de servidores "judeus" no palácio de Nabucodonosor ou eles se destacaram, diante de outros cativos, pela fidelidade ímpar?
Rodrigo Silva: Eu particularmente creio que houve outros judeus. Veja, Nabucodonosor invadiu três vezes Jerusalém. Na primeira, em 605 a.C. (na qual foram levados alguns jovens judeus para a Babilônia, talvez outros além de Daniel e seus companheiros, jovens escolhidos a dedo), ele levou os objetos do templo. Na segunda, ele voltou irado porque Jeoaquim havia se aliado ao Egito. Isso foi em 597 a.C. Nessa oportunidade, ele levou outros utensílios do templo e cerca de dez mil cativos – não só jovens, escolhidos a dedo como na primeira leva – mas gente o trabalho escravo. Na terceira, em 586 a.C., ele destruiu a cidade e o templo. Por isso, creio que o destaque de Daniel e de seus amigos se deu por causa da fidelidade deles.Conexão JA: Qual era o parâmetro de ciência exigido por Nabucodonosor diante da erudição de Daniel e de seus amigos? Em que fontes eles se abasteciam?
Rodrigo: Nas escolas da Caldeia se ensinava literatura babilônica, o que exigia dos alunos que aprendessem acadiano (língua local) e aramaico (língua da diplomacia internacional). Eles também tinham de aprender técnicas de magia (daí a presença dos magos). O termo “caldeu”, quando usado de maneira técnica, se refere ao decifrador de mapas astronômicos, tanto para fins de astronomia, quanto para fins de previsão astrológica. Então, tinham que estudar isso também.
Conexão JA: No fim dos 70 anos de cativeiro na Babilônia, por que Daniel não voltou para Jerusalém com os cativos?
Rodrigo: Tudo indica que ele permaneceu no reino de Dario. Talvez por conta própria ou por estar muito velho. Seus parentes já estavam mortos. Ele não os conhecia mais. Não havia laços de parentesco fora da Babilônia. Era mais seguro para um velho como ele ficar ali.
Conexão JA: Apesar da notória fama de Daniel e da superioridade em sabedoria, os magos e encantadores se apresentaram primeiro diante de Nabucodonosor para tentar desvendar seu sonho. Teriam eles omitido o caso a Daniel e seus amigos com a intenção de conseguir o favor do rei?
Rodrigo: É que Daniel ainda não era, nessa época, do grupo de elite dos magos ou astrônomos do rei. Era um aprendiz. Como um brilhante aluno de Jornalismo que ainda não faz parte da chefia de um jornal, mas que por erros dos "mais experientes" acaba “pagando o pato”, como se o governo - devido a algum problema com jornalistas formados – aprovasse um decreto que negasse a todo jornalista o direito de regulamentação da profissão. Foi o que aconteceu com Daniel.
Conexão JA: Se o rei conhecia as diferenças entre Daniel, seus amigos e os caldeus, por que insistiu com eles na possibilidade de interpretação do sonho e por que decretou a morte de todos, inclusive dos judeus?
Rodrigo: Soberanos têm memória curta para certas coisas. Daniel, a princípio, foi só um jovem inteligente, nada mais que isso. O Sílvio Santos pode ficar impressionado com a inteligência de um aluno de Jornalismo que conseguiu entrevistá-lo rapidamente para um trabalho de faculdade. Mas isso não garante que se lembrará dele daqui a dois anos. Foi apenas uma entrevista de poucos minutos. Não ficou na memória de um homem que lida com gente diferente todos os dias.
Conexão JA: O fato de eles estruturarem as primeiras casas bancárias auxiliou na mudança de visão por parte dos babilônios e outros povos? A permanência de muitos na Babilônia depois de cumpridos os 70 anos de cativeiro, inclusive de Daniel, reforça a tese de que a situação se reverteu em favor dos judeus?
Rodrigo: Sim, a situação se reverteu com o tempo. Os judeus se destacaram com o comércio. Como, aliás, aconteceu também quando foram para a Europa, e mesmo depois do holocausto nazista. Prova disso, é que Nova York é quase toda deles. Não estou seguro de que os judeus fundaram os primeiros bancos. Já ouvi isso, mas nunca encontrei uma sólida confirmação histórica ou arqueológica. Ademais, a moeda foi inventada pelos gregos no oitavo ou sétimo século antes de Cristo. Logo, não sei se nessa época o uso de moedas era corrente em Babilônia.
Conexão JA: Em casos de invasão relatados nos anais da História, os dominadores buscavam eliminar seus oponentes, principalmente as lideranças. Como explicar a permanência de Daniel em uma corte invasora e ainda exercendo uma relevante função?
Rodrigo: Nem sempre os dominadores matavam as lideranças. Jeoaquim foi mantido por Nabucodonosor com uma pensão vitalícia. Ademais, Daniel era de sangue real, mas não era para ser "rei" de Judá. Era um jovem inteligente e esses eram aproveitados. No Egito, temos relatos de que não-egípcios trabalharam como funcionários de alto escalão de faraó.
Conexão JA: Daniel mudou seu regime alimentar com o passar do tempo? Como explicar as diferenças entre sua decisão de não se contaminar com as iguarias reais, expressa no capítulo 1, o verso 3 do capítulo 10 e as obrigações rituais da religião naquilo que se refere ao uso da carne? Este verso se concilia com os versos 5 e 6 do capítulo 9, ou se trata de uma informação advinda de outro contexto?
Rodrigo: Não creio, para começo, que Daniel fosse vegetariano. Ele não comeu da carne do rei por uma questão ritual. No hebraico, existem verbos que só admitem Deus como sujeito. Nós não temos isso em português. Por exemplo, o verbo bará (criar) só admite Deus como sujeito e mais ninguém. De igual modo, o verbo wayeman (determinou-lhes) também não admite outro sujeito senão Deus, mas aqui ele aparece tendo, estranhamente, o rei como sujeito. "E determinou-lhes Nabucodonosor" a comida. Ora, no Éden foi Deus quem determinou o que o homem ia comer. Por isso, Daniel repete o cardápio do Éden, para mostrar que não se submeteria às exigências do rei.
Por Ruben Holdorf, jornalista e professor de Comunicação Social no Unasp, campus Engenheiro Coelho, SP (dargan_holdorf@hotmail.com)
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Pescar com a rede
Líder dos jovens adventistas sul-americanos fala sobre as ênfases do seu ministério para 2011. O uso evangelístico da internet e ações específicas para os universitários são algumas prioridadesParanaense da cidade de Castro, o pastor Areli Barbosa tem 46 anos e há 14 anos atua como líder de jovens. Em julho do ano passado, em Atlanta, Estados Unidos, ele foi eleito para liderar o ministério jovem em nível sul-americano. É casado com a professora Joci com quem tem duas filhas: Raissa (17) e Milena (15). Nesta entrevista, o pastor Areli explica que ênfase pretende dar ao ministério jovem em 2011 e nos próximos cinco anos. O plano é valorizar o evangelismo pela internet, as mídias da igreja voltadas para os jovens e também dar suporte aos universitários.
Conexão JA: Por que optou trabalhar no ministério jovem?
Areli: Quando estava em Minas Gerais, em 1997, fui nomeado diretor do ministério jovem. Neste momento, entendi que a Igreja queria que eu dedicasse mais tempo para o trabalho com a juventude. O pastor não deve escolher no que irá trabalhar, mas colocar a vida nas mãos de Deus e fazer o que a Igreja pede. Esta é uma das leis dos desbravadores: “ir aonde Deus mandar”. Sinto-me um homem privilegiado e quero me colocar nas mãos de Deus para ser útil.
Conexão JA: Hoje, trabalhar com internet com os jovens é um caminho sem volta?
Areli: A internet é uma ferramenta fantástica e se bem direcionada pode ser uma bênção. Ao realizar os dois congressos de evangelismo online pela web, tinha dois objetivos: levar a juventude a santificar as horas do sábado, mesmo usando a internet (os congressos foram realizados na sexta à noite) e desafiar a juventude a pregar pela web. Ao realizar os eventos, pude descobrir algumas coisas:
(1) A ação pela internet dá um retorno muito rápido. Tivemos casos na programação em que jovens mandaram um folheto missionário virtual e o amigo internauta que recebeu, respondeu agradecido logo em seguida;
(2) A juventude se envolveu acima do esperado. Isso mostra que eles querem que a igreja assuma a responsabilidade de liderar os projetos que eles irão seguir;
(3) Alcançamos nestes dois eventos mais de 100 mil pessoas de forma direta e indireta, em 28 países;
(4) Há um potencial na internet que deve ser explorado, por não ter a barreira do país ou da etnia. A rede alcança a todos;
(5) A ação na internet pode ser duradoura, como o site http://www.esperancaweb.org.br/, que é atualizado constantemente.
Com certeza, a internet bem direcionada é um caminho sem volta, e nos próximos anos estaremos envolvendo com mais intensidade a juventude no uso da rede para pregar o evangelho.
Conexão JA: De que maneira você pretende apoiar as publicações e programas de rádio e de TV voltados para os jovens?
Areli: A igreja tem hoje o grande privilégio de ter uma rede de televisão e rádio. Temos visto como nosso sistema de comunicação tem se tornado de alta qualidade mesmo com os desafios financeiros. A TV Novo Tempo (http://www.novotempo.org.br/) tem uma programação que não precisa de censura, porque é livre para todos os públicos. Isto também nos ensina que o que é próprio para assistir, é aquilo que pode reunir toda a família. Outro ponto importante é a literatura. O que ler? A Casa Publicadora Brasileira (http://www.cpb.com.br/) tem lançado materiais de muita qualidade. E creio que a juventude deveria explorar mais esses materiais. Li recentemente o livro Ainda que caiam os céus, uma história inspiradora de fé de um pastor que viveu na Rússia no auge do regime comunista. Mas a juventude não pode se esquecer do seu periódico: a Conexão JA. Eu participei do nascimento dessa revista. Ela supriu uma lacuna deixada pelo fim da revista Mocidade. O objetivo da Igreja para esta revista é que ela apóie o jovem adventista pré-universitário e universitário a viver as doutrinas e princípios.
Conexão JA: Para este ano, está prevista uma ênfase especial nos universitários adventistas. O que você pensa fazer em favor desse segmento emergente no Brasil?
Areli: Teremos um concurso bíblico voltado para os universitários e a final será na Universidade Adventista do Peru. O concurso Bom de Bíblia tem como principal objetivo levar a igreja a ler mais a Palavra de Deus. A Bíblia deve fazer parte da rotina das pessoas porque ela é a voz de Deus a nos orientar, em especial os jovens. Dos 17 aos 24 anos, os jovens, em geral, tomam as duas decisões mais importantes da vida: que profissão segui e com quem vai se casar. Nesta hora, a Bíblia é “lâmpada para os pés e luz para os caminhos”. Além disso, vamos incentivar a formação de associações de universitários, para ajudar os jovens nos seus desafios acadêmicos.
Conexão JA: Quais serão as marcas do seu trabalho pelos próximos cinco anos como líder dos jovens adventistas sul-americanos?
Areli: Quero que cada vez mais a juventude tenha responsabilidade missionária, envolvimento e carinho por sua igreja local, com uma vida de respeito e reverência para com os princípios, pais e líderes. Desejo que a juventude me veja como um pregador da Bíblia, apoiador dos projetos da Igreja e incentivador da missão. Quando olho para a juventude, penso nas minhas duas filhas, por isso, quero ser um conselheiro e apoiador dos jovens e liderá-los para a vida eterna.
Por Wendel Lima
terça-feira, 6 de julho de 2010
Além de seu tempo
Professor defende tese doutoral que explica o pensamento de vanguarda de Ellen G. White
Nascido na Bolívia, mas radicado no Brasil, o professor e pastor Adolfo Semo Suárez deve à educação cristã sua conversão ao adventismo. O contato com a escola adventista na juventude o motivou a fazer da docência seu ministério. Toda sua carreira tem sido dedicada ao ensino religioso no Ensino Fundamental, Médio e Superior. Autor de três livros, Adolfo também é co-autor da série Interativa de Ensino Religioso (http://www.cpb.com.br/), utilizada nas escolas adventistas brasileiras. Nessa entrevista, ele fala sobre o tema de sua tese doutoral, defendida há pouco mais de um mês na Umesp, em São Bernardo do Campo, SP. Durante dois anos, um deles passado nos Estados Unidos, Adolfo estudou por que a americana Ellen Gold White, principal referência da educação adventista, escreveu e promoveu conceitos educacionais de vanguarda para sua época. Ele é formado em Teologia e Pedagogia, é mestre em Ciências da Religião, é professor assistente do MBA em Liderança da Andrews University (EUA) e docente do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), em Engenheiro Coelho, SP.
1) Parece-me que as conclusões de sua pesquisa apontaram para alguns conceitos educacionais de vanguarda de Ellen White, escritos no século 19. Em que aspectos ela se mostrou além de seu tempo?
Em diversos aspectos. Aponto ao menos dois. Em seus escritos há uma sólida abordagem sobre o caráter holístico da educação, discussão que seria valorizada por outros autores apenas algumas décadas depois de seu primeiro e famoso texto chamado “A Educação Ideal” (Testemunhos Seletos, vol. 3). Ela defendia que deveria se evitar a fragmentação educacional e se valorizar todos os aspectos do homem, inclusive o espiritual.
Outro conceito pioneiro do pensamento de White foi a temática da libertação-liberdade, especificamente quanto ao pensamento reflexivo. Enquanto que a tendência da sua época era a padronização e ortodoxia da educação, que produzia estudantes “formatados”, ela defendeu o desenvolvimento do senso crítico, a fim de que os alunos simplesmente não refletissem o pensamento de outros.
A postura de Ellen White é inovadora e até ousada para seu tempo, e adquire maior significado quando percebemos que suas ideias contrariaram seu próprio grupo religioso, que, de modo geral, preferia não investir em educação devido sua crença na brevidade da volta de Jesus.
2) A ideia de uma educação libertadora, conforme concebida por Paulo Freire, é recorrente nas discussões sobre educação. O que ele pensava sobre isso e como seus estudos convergem e divergem da posição de Ellen White?
Nas palavras de Freire, o ser humano tem consciência de sua finitude. E sua transcendência nasce justamente “na consciência que tem desta finitude. Do ser inacabado que é, cuja plenitude se acha na ligação com seu Criador” (Educação como Prática da Liberdade, p. 48). Ao contrário dos fenomenólogos, conforme André Gustavo Ferreira da Silva, Freire entende “que a liberdade [...] não é a transcendência em si, mas a sua completude pela dimensão supra mundana, a suprema autonomia diante da própria materialidade”, ultrapassando “o mundo e sua própria materialidadade”(O Conceito de Liberdade no 1º Paulo Freire, p. 7). Esse conceito parece estar em sintonia com a ideia de White sobre a impotência humana, que impossibilita o homem de escapar de suas próprias limitações, tornando indispensável a participação divina. Já a principal divergência entre White e Freire é a respeito dos fundamentos da liberdade: enquanto White entende a liberdade como fundamentada em Deus – é um chamado divino – Freire a compreende como um desejo do oprimido, o qual nasce no coração dele.
3) Como a experiência de superação pessoal de Ellen White influenciou seus escritos?
Ao analisar a infância de Ellen White, percebo que desde a meninice ela foi forçada a aprender a lidar com a rejeição. Sentia-se rejeitada por ser diferente em sua condição física (na infância, White recebeu uma pedrada no rosto, o que lhe trouxe complicações de saúde para o resto da vida) e, consequentemente, sentia-se diferente por ser rejeitada. Essas rejeições se manifestaram ao longo da vida, especialmente quando seus conselhos e orientações estavam na contramão daquilo que a maioria esperava.
Creio que podemos enxergar na experiência de superação pessoal de White uma metáfora daquilo que todo sujeito é capaz de alcançar, especialmente quando se conscientiza de suas limitações e possibilidades e de que deve, deliberadamente, ser o construtor de suas realizações, tendo Deus como o gerador de sentido para uma vida que muitas vezes parece não ter sentido. Essa pedagogia se mostrou importante para a nascente igreja, pois lhe apontou suas possibilidades e limitações e ensinou-lhe a depender de Deus em seus desafios.
4) Como o senhor explica a contribuição educacional de Ellen White para um movimento religioso, sendo que ela teve acesso a apenas à educação elementar?
Tenho plena convicção de que a percepção e o pensamento seminal de Ellen White sobre educação não eram possíveis por meios meramente humanos. Toda essa contribuição é fruto da revelação de Deus. Afirmo isso por que a abordagem de certos temas (serviço, pensamento crítico, redenção e educação, holismo educacional, para citar alguns) eram incipientes em sua época. Como ela teria a sensibilidade de abordá-los sem ter uma sólida formação teórica? Daí que só resta uma resposta sensata: foi fruto de revelação.
5) A educação confessional está em alta ou baixa? O que diferencia a filosofia educacional adventista dos demais modelos confessionais?
A educação confessional, de modo geral, não cresce. Mas a educação adventista avança a passos largos. E creio que avança, em grande medida, por causa de sua proposta diferenciada. E sua grande diferença não é a abordagem religiosa, pois essa temática é cada vez mais frequente na educação secular. Seu diferencial é, primeiramente, a proposta de transformação total da personalidade, a restauração da imagem de Deus no homem. A segunda distinção é a comunhão A educação adventista propõe fazer do processo ensino-aprendizado um ato de partilha, por isso valoriza a comunhão entre alunos e alunos, e entre estudantes e professores.
6) Além dos aspectos religiosos, quais são as contribuições do pensamento de Ellen White para hoje?
Muitas! Mas fico apenas na questão da redenção e do serviço. As implicações da noção de educação-redenção para a práxis educacional ocorrem em pelo menos três aspectos: (1) modifica o sujeito ao longo da vida, por que é um ensino que não se limita a sala de aula, sendo capaz de unir a educação familiar, escolar, social e eclesial; (2) modifica o sujeito em sua complexidade, promovendo todas as potencialidades humanas (não apenas as cognitivas), o sintonizando à demanda multidimensionais da sociedade. Finalmente, destaco que ela propôs uma práxis pedagógica que prepara para o serviço. Assim, mediante uma vida de utilidade, o ser humano é elevado acima da escravidão da artificialidade.
7) Que riscos reais as escolas adventistas correm de perder a identidade e como reverter esse processo?
A prática educacional se faz fundamentada em ideologias. Quando as ideologias assumidas (consciente ou inconscientemente) divergem da proposta que originou o movimento – as quais se mostram certas, apropriadas – então a prática educacional assume outro “rosto” ou “roupagem”, o que desfigura sua proposta inicial. A educação adventista corre esse risco porque, à medida que o tempo passa, vivemos mais longe dos fundadores, o que contribui para o esquecimento das ideologias fundantes. Como reverter esse processo? Precisamos refletir em nossas práticas, a fim de sermos capazes de discernir o que devemos reafirmar e solidificar, e o que devemos mudar para manter nossa missão e identidade. Para isto, nada melhor do que a releitura daquilo que um dia formou nossa identidade.
8) O senhor leciona e vive próximo a um campus de internato. Por que Ellen White apoiou a construção de internatos e qual é a relevância desse modelo hoje para os alunos do ensino superior?
Ela apoiou os internatos por que tinha a convicção de que haviam sido estabelecidos a fim de preservar os jovens das más influências. No seu entender, essas instituições deveriam prover uma “atmosfera doméstica” aos jovens, para resguardá-los “de tentações à imoralidade” (Counsels on Education, p. 154). Os internatos cumprem um papel fundamental hoje para os estudantes do ensino superior, oferecendo a eles uma sólida formação integral: cognitiva, social, emocional, física e espiritual, pois o internato – com suas diversas programações – cria possibilidades para isso. Ademais, nesse ambiente, o aluno adquire autonomia, responsabilidade e disciplina, elementos fundamentais para o sucesso profissional - Por Wendel Lima.
Saiba +
A Igreja Adventista mantém dezenas de internatos ao redor do mundo. No Brasil, seis campi oferecem cursos no ensino superior, confira:
Faama - Faculdade Adventista da Amazônia (Benevides, PA)
http://www.faama.org.br/
FADBA - Faculdades Adventistas da Bahia (Cachoeira, BA)
http://www.iaene.br/
Fadminas – Faculdades Adventistas de Minas Gerais (Lavras, MG)
http://www.fadminas.org.br/
IAP - Instituto Adventista Paranaense (Ivatuba, PR)
http://www.iap.org.br/
Unasp - Centro Universitário Adventista de São Paulo (Capital e interior)
http://www.unasp.edu.br/
Nascido na Bolívia, mas radicado no Brasil, o professor e pastor Adolfo Semo Suárez deve à educação cristã sua conversão ao adventismo. O contato com a escola adventista na juventude o motivou a fazer da docência seu ministério. Toda sua carreira tem sido dedicada ao ensino religioso no Ensino Fundamental, Médio e Superior. Autor de três livros, Adolfo também é co-autor da série Interativa de Ensino Religioso (http://www.cpb.com.br/), utilizada nas escolas adventistas brasileiras. Nessa entrevista, ele fala sobre o tema de sua tese doutoral, defendida há pouco mais de um mês na Umesp, em São Bernardo do Campo, SP. Durante dois anos, um deles passado nos Estados Unidos, Adolfo estudou por que a americana Ellen Gold White, principal referência da educação adventista, escreveu e promoveu conceitos educacionais de vanguarda para sua época. Ele é formado em Teologia e Pedagogia, é mestre em Ciências da Religião, é professor assistente do MBA em Liderança da Andrews University (EUA) e docente do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), em Engenheiro Coelho, SP.
1) Parece-me que as conclusões de sua pesquisa apontaram para alguns conceitos educacionais de vanguarda de Ellen White, escritos no século 19. Em que aspectos ela se mostrou além de seu tempo?
Em diversos aspectos. Aponto ao menos dois. Em seus escritos há uma sólida abordagem sobre o caráter holístico da educação, discussão que seria valorizada por outros autores apenas algumas décadas depois de seu primeiro e famoso texto chamado “A Educação Ideal” (Testemunhos Seletos, vol. 3). Ela defendia que deveria se evitar a fragmentação educacional e se valorizar todos os aspectos do homem, inclusive o espiritual.
Outro conceito pioneiro do pensamento de White foi a temática da libertação-liberdade, especificamente quanto ao pensamento reflexivo. Enquanto que a tendência da sua época era a padronização e ortodoxia da educação, que produzia estudantes “formatados”, ela defendeu o desenvolvimento do senso crítico, a fim de que os alunos simplesmente não refletissem o pensamento de outros.
A postura de Ellen White é inovadora e até ousada para seu tempo, e adquire maior significado quando percebemos que suas ideias contrariaram seu próprio grupo religioso, que, de modo geral, preferia não investir em educação devido sua crença na brevidade da volta de Jesus.
2) A ideia de uma educação libertadora, conforme concebida por Paulo Freire, é recorrente nas discussões sobre educação. O que ele pensava sobre isso e como seus estudos convergem e divergem da posição de Ellen White?
Nas palavras de Freire, o ser humano tem consciência de sua finitude. E sua transcendência nasce justamente “na consciência que tem desta finitude. Do ser inacabado que é, cuja plenitude se acha na ligação com seu Criador” (Educação como Prática da Liberdade, p. 48). Ao contrário dos fenomenólogos, conforme André Gustavo Ferreira da Silva, Freire entende “que a liberdade [...] não é a transcendência em si, mas a sua completude pela dimensão supra mundana, a suprema autonomia diante da própria materialidade”, ultrapassando “o mundo e sua própria materialidadade”(O Conceito de Liberdade no 1º Paulo Freire, p. 7). Esse conceito parece estar em sintonia com a ideia de White sobre a impotência humana, que impossibilita o homem de escapar de suas próprias limitações, tornando indispensável a participação divina. Já a principal divergência entre White e Freire é a respeito dos fundamentos da liberdade: enquanto White entende a liberdade como fundamentada em Deus – é um chamado divino – Freire a compreende como um desejo do oprimido, o qual nasce no coração dele.
3) Como a experiência de superação pessoal de Ellen White influenciou seus escritos?
Ao analisar a infância de Ellen White, percebo que desde a meninice ela foi forçada a aprender a lidar com a rejeição. Sentia-se rejeitada por ser diferente em sua condição física (na infância, White recebeu uma pedrada no rosto, o que lhe trouxe complicações de saúde para o resto da vida) e, consequentemente, sentia-se diferente por ser rejeitada. Essas rejeições se manifestaram ao longo da vida, especialmente quando seus conselhos e orientações estavam na contramão daquilo que a maioria esperava.
Creio que podemos enxergar na experiência de superação pessoal de White uma metáfora daquilo que todo sujeito é capaz de alcançar, especialmente quando se conscientiza de suas limitações e possibilidades e de que deve, deliberadamente, ser o construtor de suas realizações, tendo Deus como o gerador de sentido para uma vida que muitas vezes parece não ter sentido. Essa pedagogia se mostrou importante para a nascente igreja, pois lhe apontou suas possibilidades e limitações e ensinou-lhe a depender de Deus em seus desafios.
4) Como o senhor explica a contribuição educacional de Ellen White para um movimento religioso, sendo que ela teve acesso a apenas à educação elementar?
Tenho plena convicção de que a percepção e o pensamento seminal de Ellen White sobre educação não eram possíveis por meios meramente humanos. Toda essa contribuição é fruto da revelação de Deus. Afirmo isso por que a abordagem de certos temas (serviço, pensamento crítico, redenção e educação, holismo educacional, para citar alguns) eram incipientes em sua época. Como ela teria a sensibilidade de abordá-los sem ter uma sólida formação teórica? Daí que só resta uma resposta sensata: foi fruto de revelação.
5) A educação confessional está em alta ou baixa? O que diferencia a filosofia educacional adventista dos demais modelos confessionais?
A educação confessional, de modo geral, não cresce. Mas a educação adventista avança a passos largos. E creio que avança, em grande medida, por causa de sua proposta diferenciada. E sua grande diferença não é a abordagem religiosa, pois essa temática é cada vez mais frequente na educação secular. Seu diferencial é, primeiramente, a proposta de transformação total da personalidade, a restauração da imagem de Deus no homem. A segunda distinção é a comunhão A educação adventista propõe fazer do processo ensino-aprendizado um ato de partilha, por isso valoriza a comunhão entre alunos e alunos, e entre estudantes e professores.
6) Além dos aspectos religiosos, quais são as contribuições do pensamento de Ellen White para hoje?
Muitas! Mas fico apenas na questão da redenção e do serviço. As implicações da noção de educação-redenção para a práxis educacional ocorrem em pelo menos três aspectos: (1) modifica o sujeito ao longo da vida, por que é um ensino que não se limita a sala de aula, sendo capaz de unir a educação familiar, escolar, social e eclesial; (2) modifica o sujeito em sua complexidade, promovendo todas as potencialidades humanas (não apenas as cognitivas), o sintonizando à demanda multidimensionais da sociedade. Finalmente, destaco que ela propôs uma práxis pedagógica que prepara para o serviço. Assim, mediante uma vida de utilidade, o ser humano é elevado acima da escravidão da artificialidade.
7) Que riscos reais as escolas adventistas correm de perder a identidade e como reverter esse processo?
A prática educacional se faz fundamentada em ideologias. Quando as ideologias assumidas (consciente ou inconscientemente) divergem da proposta que originou o movimento – as quais se mostram certas, apropriadas – então a prática educacional assume outro “rosto” ou “roupagem”, o que desfigura sua proposta inicial. A educação adventista corre esse risco porque, à medida que o tempo passa, vivemos mais longe dos fundadores, o que contribui para o esquecimento das ideologias fundantes. Como reverter esse processo? Precisamos refletir em nossas práticas, a fim de sermos capazes de discernir o que devemos reafirmar e solidificar, e o que devemos mudar para manter nossa missão e identidade. Para isto, nada melhor do que a releitura daquilo que um dia formou nossa identidade.
8) O senhor leciona e vive próximo a um campus de internato. Por que Ellen White apoiou a construção de internatos e qual é a relevância desse modelo hoje para os alunos do ensino superior?
Ela apoiou os internatos por que tinha a convicção de que haviam sido estabelecidos a fim de preservar os jovens das más influências. No seu entender, essas instituições deveriam prover uma “atmosfera doméstica” aos jovens, para resguardá-los “de tentações à imoralidade” (Counsels on Education, p. 154). Os internatos cumprem um papel fundamental hoje para os estudantes do ensino superior, oferecendo a eles uma sólida formação integral: cognitiva, social, emocional, física e espiritual, pois o internato – com suas diversas programações – cria possibilidades para isso. Ademais, nesse ambiente, o aluno adquire autonomia, responsabilidade e disciplina, elementos fundamentais para o sucesso profissional - Por Wendel Lima.
Saiba +
A Igreja Adventista mantém dezenas de internatos ao redor do mundo. No Brasil, seis campi oferecem cursos no ensino superior, confira:
Faama - Faculdade Adventista da Amazônia (Benevides, PA)
http://www.faama.org.br/
FADBA - Faculdades Adventistas da Bahia (Cachoeira, BA)
http://www.iaene.br/
Fadminas – Faculdades Adventistas de Minas Gerais (Lavras, MG)
http://www.fadminas.org.br/
IAP - Instituto Adventista Paranaense (Ivatuba, PR)
http://www.iap.org.br/
Unasp - Centro Universitário Adventista de São Paulo (Capital e interior)
http://www.unasp.edu.br/
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quinta-feira, 8 de abril de 2010
Entre a fé e o mito
Vez ou outra o Santo Sudário, mortalha identificada por alguns como o pano que cobriu Jesus após sua morte, é pautado pela imprensa, especialmente em datas de interesse cristão, como a Páscoa. Por isso, na semana passada, diversas matérias sobre a reconstituição do rosto do defunto envolto na relíquia ganharam destaque, dentre elas uma veiculada no Fantástico do último domingo. Para saber um pouco mais sobre o que há de concreto e sensacionalista nessa discussão, conversei com o professor Rodrigo Silva, doutor em Novo Testamento, especialista em Arqueologia Bíblica pela Universidade Hebraica de Jerusalém e curador do Museu Paulo Bork do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp), onde também leciona no curso de Teologia. Ele, que apresenta o programa Evidências da TV Novo Tempo, explica por que é cético em relação ao sudário e se a imagem imortalizada que temos de Jesus tem respaldo histórico. 1) Apesar de a autenticidade do Santo Sudário já ter sido seriamente questionada, por que a relíquia é pauta recorrente?
O que temos são modismos sensacionalistas. Por exemplo, quando em 1980 três laboratórios mostraram, a partir do teste de carbono 14, que o pano era da Idade Média, o descrédito veio a tona na mídia. Em 2005, quando a Igreja Católica declarou que o pano submetido a exame, por engano, fora apenas um remendo feito no sudário por freiras na Idade Média, a questão voltou ao noticiário. A seguir, em 2009, quando um sudário autêntico do primeiro século foi encontrado numa tumba em Jerusalém, a comparação com o sudário de Turim novamente lançou dúvidas sobre o assunto. Mas, vale lembrar que, a veracidade do sudário não foi o tema da matéria do Fantástico e sim a reconstituição do rosto do suposto morto envolvido no pano.
2) O senhor se considera um crítico ou no mínimo um desconfiado em relação à mortalha. Por quê?
Apesar de crer na ressurreição literal de Jesus, não aprecio a fabricação de argumentos para consubstanciar minha fé. A legitimidade ou não do Santo Sudário, não me faz mais nem menos crente acerca da historicidade da ressurreição. Além disso, as investigações sobre a peça ficaram restritas a Igreja Católica, o que dificulta a credibilidade da pesquisa. Mesmo assim, o grupo que investigou um pedaço do pano, sob a tutela da Igreja, teve resultados muito contraditórios, sem contar os outros três laboratórios que dataram a "relíquia" como pertencendo à Idade Média. Logo, do ponto de vista científico ou acadêmico há muito pouco o que dizer sobre um objeto que não está disponível para investigação.
3) E o que de concreto pode haver contra a autenticidade do sudário?Alguns fatores, entre eles, a não comprovação de que o sangue contido no pano seja humano. E ainda que seja de um homem, intriga porque o sangue fresco em contato com o lençol deixaria um borrão e não a marca de um tênue escorrimento. Em segundo lugar, se o corpo de Jesus foi levado envolto no lençol desde a cruz até o túmulo, a caminhada apressada dos discípulos provocaria marcas de transporte no tecido. Essas marcas não existem. Em terceiro lugar, a Bíblia, no texto de João 19:38 a 20:7, menciona que Jesus foi envolto em "lençóis", no plural. E indica também que um dos panos estaria envolvendo apenas a cabeça. Essa descrição contraria a teoria do sudário, por ser uma peça única.
4) E quanto à posição do corpo?
As mãos do defunto sobre a pélvis é no mínimo suspeita. Segundo o costume judeu, os corpos tinham os braços estendidos do lado do corpo ou ajeitados junto ao dorso (a cabeça também era virada para um dos lados). No caso do sudário, as mãos foram delicadamente colocadas sobre o baixo-ventre, como se estivesse cobrindo a nudez do defunto, imagem que parece evocar o puritanismo artístico-medieval. Outra suspeita é a suposta moeda romana vista nos olhos do corpo, demonstrando mais uma prática da Idade Média do que dos tempos do Novo Testamento. E por fim, chamo atenção para o silêncio da Bíblia em relação ao sudário. Se ele fosse autêntico teria sido mencionado pelos discípulos ou críticos de Jesus.
5) No decorrer dos séculos, a figura de um homem alto, com barba e cabelos longos foi praticamente imortalizada como a imagem de Jesus. É possível precisar quando Cristo começou a ser retratado dessa forma e por quê?
Até o início do quinto século praticamente não havia representações artísticas da cruz e da crucificação. Os primeiros cristãos pareciam pouco inclinados a destacar visualmente a morte humilhante do filho de Deus, preferindo retratá-lo em vida como amigo, senhor e protetor. Mas é no período bizantino que se começa a explorar mais as feições faciais de Cristo, de um Jesus com barbas e cabelos longos. Porém, segundo Irineu de Lion, um escritor da Igreja Cristã que viveu no 2º século depois de Cristo, ou seja, muito mais próximo das fontes apostólicas, as descrições feitas em sua época sobre Jesus eram completamente equivocadas. Santo Agostinho de Hipona, por sua, escreveu no começo do 5º século que ignorava completamente as descrições artísticas feitas de Jesus. Talvez, sua fala fosse uma condenação a riqueza e ostentação manifestadas por um cristianismo que dava as mãos para o império romano e se distanciava cada vez mais da simplicidade dos primeiros seguidores de Cristo.
6) O que a Bíblia e os escritos dos primeiros cristãos dizem sobre a aparência física de Jesus?
Na Bíblia, não encontramos um “retrato falado de Jesus”, porém, se aliarmos sua leitura às informações arqueológicas disponíveis, é possível encontrar ali poucas, porém, razoáveis possibilidades. Inquestionavelmente ele era um semita, e como os povos que habitavam ao sul do Mediterrâneo, deveria se distinguir dos gregos e romanos pela cor azeitonada da pele, olhos negros, cabelo escuro, nariz arqueado e estatura mediana. Pelo trabalho pesado que exercia como carpinteiro (não de móveis, mas no corte de pedras e de madeiras para a construção de casas), e por conseguir carregar a cruz por um bom trajeto, Ele deveria ter um físico musculoso.
7) Há poucos anos, uma pesquisa feita com base no crânio de um judeu do primeiro século sugeriu uma face morena e mais arredondada para Cristo, bem distinta da tradicional. Seria essa mais próxima da real? Veja o vídeo sobre a pesquisa.
O próprio professor Richard Neave, da Universidade de Manchester, que comandou a pesquisa, admitiu que essa tentativa forense também tem suas limitações. Questões como cor da pele e dos olhos, forma e tamanho do cabelo e certas cartilagens exteriores são fruto exclusivo da imaginação do especialista, o que torna o resultado parcialmente artístico e não 100% científico como se supõe. Ademais, Neave usou o crânio de um judeu e não faria sentido pensar que todos os contemporâneos de Jesus eram parecidos.
Por Wendel Lima
Para saber +
DVD Evidências, volumes 1 e 2, com 16 programas cada
Livro Escavando a verdade, do Dr. Rodrigo Silva (CPB)
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
É o fim!?

Casamento, estudos, carreira profissional. Os jovens têm tantos planos para o futuro. O que eles pensam sobre o fim do mundo?
Basta ligar a TV, ler a primeira página do jornal de hoje ou entrar em contato com qualquer meio de comunicação do mundo, e você recebe notícia de atentados, catástrofes – sinais que anunciam o fim. É manchete: o Apocalipse está chegando! Como os jovens cristãos vêem isso e o que pensam a respeito? Fazem planos para si? A equipe da Conexão JA reuniu sete jovens de vários cantos do Brasil para tentar descobrir. Os entrevistados: Caleb Miranda, São Paulo, SP; Carine Cardoso, Goiânia, GO; Clarissa Tagliari, Florianópolis, SC; Fernando Cerqueira, Nanuque, MG; Paulo Mondego, Brasília, DF; Rodrigo Galiza, Natal, RN; Vanila Pontes, São Paulo, SP.
Conexão JA: Do que vocês têm visto, o que demonstra que o mundo está mesmo no fim?
Rodrigo: Catástrofes em todo canto. A gente fez uma pesquisa na faculdade e viu que está aumentando a proporcionalidade entre o período e o número de furacões que ocorrem.
Paulo: Quem é adventista sempre se liga nessas coisas. Quando acontece alguma coisa, a gente liga ao fim do mundo. Só que, depois do tsunami, as pessoas ficaram mais apreensivas, ficaram mais atentas ao meio ambiente, aquecimento global. A mídia fala disso, e a gente fica de antena ligada porque sabe por que isso está acontecendo.
As revistas da banca trazem na capa “O fim do mundo começou”. É uma coisa espantosa. Dez anos atrás, se fizéssemos isso, seríamos alarmistas. Por que agora a mídia faz isso o tempo todo?
Paulo: Bom, a mídia aproveita tudo que dá ibope. Pode ser uma catástrofe, pode ser a morte de alguém. Deu ibope, ela cobre. Mas, cientificamente, a gente comprova que a natureza está evidenciando o fim do mundo.
Fernando: Nós, que realmente esperamos isso, que estamos atentos a tudo isso, não estamos falando disso. Esperamos as pessoas falarem...
Por que vocês acham que nós, como adventistas, nos acomodamos diante de tantas evidências do fim do mundo, quando todo o mundo está alarmado com isso?
Rodrigo: Acho que sempre demos ênfase a esses sinais, então isso ficou comum.
Vanila: A Igreja Adventista já há muito tempo prega sobre a volta de Jesus. A gente acaba se acostumando de tal forma que pensa: “É só mais um acontecimento. Ainda falta muita coisa pra acontecer.” E aí, acaba realmente se acomodando com a idéia de que ainda há muito tempo até o fim.
E guerras com motivação religiosa, isso também tem a ver com o fim do mundo?
Caleb: Já era predito que haveria guerras e rumores de guerra. A Bíblia diz que o amor vai se esfriar e cada vez mais vai haver isto: povo contra povo, nação contra nação.
Quando você vê o que acontece no mundo e constata que crê na verdade, como isso mexe com a sua fé?
Caleb: A gente se firma mais na fé. Mas, por outro lado, a gente não tem se preparado tanto, e acaba se esquecendo de ler a Bíblia, de estudar a Lição, de ter comunhão...
Carine: Uma questão interessante é sabermos defender nossos princípios, conhecer aquilo que a Igreja prega. Eu mesma não sei muito sobre profecias. A gente tem que cuidar um pouco com isso e se preparar pra isso não só para a volta de Cristo, mas para ajudar outras pessoas a entender a Bíblia e, quem sabe, dar um bom testemunho para essas pessoas.
Será que esse desleixo com as coisas espirituais também não é um sinal do fim do mundo?
Fernando: Sim, a Igreja está “morna”.
Como é que vocês vivem este paradoxo: tantos sinais e essa apatia?
Paulo: Quando eu me batizei, era uma empolgação tremenda. Nós trabalhávamos em prol da Igreja, vivíamos pela Igreja, a juventude era reunida naquilo. Hoje, eu diria que 10 por cento dos meus amigos daquele tempo ainda estão na Igreja.
Clarissa: Acho que isso acontece porque a gente pensa na volta de Jesus, mas não como uma coisa presente, que vai acontecer logo. A gente não vive pensando que Jesus vai voltar amanhã, no tempo real. Talvez os jovens até conheçam a doutrina, mas não conhecem Jesus direito, não sentem saudade dEle.
De quem é a culpa de o jovem hoje só ter Jesus na teoria?
Rodrigo: É mão e contramão. O jovem e o seu líder têm culpa. O líder não tem pregado sobre isso, e isso faz os membros da Igreja se acomodarem. Mas, como a salvação é individual, o jovem tem que buscar conhecimento, e não esperar apenas pelo líder. Quanto ao fim do mundo, existe uma coisa pra se pensar: parece mais interessante assistir a um filme sobre Lutero, que tem aí umas duas horas, do que ler O Grande Conflito. Mas a verdade é que eu também assisto a outros filmes. E, na questão do fim do mundo, passa alienígena, coisas estranhas. Daqui a pouco, o fim do mundo que eu espero não é igual ao que está na Bíblia, mas como Hollywood me mostrou.
Vocês acham que o fim vai ser catastrófico? Como vêem isso com esperança de uma nova vida?
Paulo: É uma questão muito pessoal. Porque, se você diz que tem medo, não está preparado. Você assume seu despreparo com relação ao fim do mundo. Se você diz que está esperançoso, é porque você está firme na fé que você tem, na religião que você tem. Não tem meio termo.
Fernando: Ah, eu acho que coragem não quer dizer ausência de medo. O que a gente precisa é manter a fé. Precisa acreditar que, quando chegar essa época, Deus vai nos dar força.
Paulo: Eu penso que vai ser uma coisa muito dura. A Igreja não está escondida como a gente pensa. Quanta gente nós conhecemos? Quanta gente que conhecemos vai nos entregar? Até dentro da própria Igreja vão surgir essas pessoas.
Rodrigo: A visão que precisa ter não é só de eventos finais, perseguição, fome, juízo. A Bíblia mostra que esse é um evento de esperança; eu vou sair deste mundo de pecado, vou viver eternamente.
Paulo: Entendo essa posição, e a gente tem que pensar assim; mas, quando chega o momento de você sentir na pele, a situação muda.
Vanila: O que me assusta é não saber se estou salva ou se estou perdida. As pessoas estão muito apegadas com o que nós temos no mundo e não conseguem ver que há algo melhor.
Paulo: É a visão do agora, a gente vive o “agora” e se esquece do futuro.
O que vocês entendem por perseguição?
Fernando: Talvez a gente não entenda bem essa história de tortura. Tivemos ditadura no Brasil, mas isso está só no livro agora. Então, nós já estamos acostumados com essa oportunidade de falar, de expor idéias. Não ter esse direito é algo de uma cultura distante, lá da Cuba, da China.
Dos que não nasceram na igreja, quando vocês se converteram achavam que Jesus ia voltar depois de quanto tempo?
Caleb: Pensava em algo perto de três anos. Pensava: “Vou começar a me preparar.”
Carine: Realmente, estava muito vivo. No dia do meu batismo, essa mensagem era tão viva pra mim, que eu achava que Jesus ia voltar naquele dia.
Vanila: Eu achava que nem ia fazer faculdade...
E hoje, como pensam?
Clarissa: É uma idéia com a qual a gente se acostumou.
Carine: É aquela questão do primeiro amor. Pra mim, Jesus ia voltar muito rápido. Eu tenho esperança de que Ele irá voltar muito próximo.
Se a gente mantiver o primeiro amor, não é o sermão do pastor que vai fazer a diferença na vida espiritual. O sermão do pastor ajuda, mas não dá para trocar pela Bíblia e pela oração. E o fim do mundo vai chegar, independente da espiritualidade de cada um. Então, analisando isso, o que você tem feito para se preparar?
Vanila: Quando eu olho para minha vida antes, às vezes, fico um pouco decepcionada comigo mesma, porque antes eu fazia mais. Não tenho participado muito na igreja, só esquento o banco. Eu preciso mudar. Mas uma coisa que eu tenho procurado fazer a cada dia é ter minha comunhão pessoal, acordar um pouco mais cedo, estudar a Lição, ler a Bíblia, a Meditação.
Fernando: Cristianismo é algo pra ser vivido na prática. A oportunidade é você quem faz e eu tenho aproveitado para me dedicar à pesquisa, saber mais sobre a volta de Jesus, o que cremos, e isso tem fortalecido minha fé. Tenho buscado manter Jesus sempre presente.
Clarissa: Deus dá o talento pra gente e a gente tem que achar uma forma de usar esse dom. Às vezes, eu sei, a gente desanima, porque há tantas pessoas que cantam, tocam ou falam melhor que a gente. Mas cada um pode testemunhar do seu jeito.
Caleb: Eu tenho feito muito pouco, mas quero fazer algo para crescer. A gente precisa escolher se, um dia, vai fugir ou perseguir.
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